sexta-feira, 31 de julho de 2015

O amargo remédio da GREVE

As pessoas não costumam ir ao médico se estão sadias, porém, se estão doentes e esta doença "toma" proporção considerada grave, muitas vezes é chegada a hora do "remédio". E haja vista, muito bem sabemos desde nossa tenra infância, o quanto são amargos os remédios. Ainda pequenos não conseguimos compreender porque quando estamos doentes precisamos tomar uma "coisa ruim" e é esta coisa que irá nos curar? Ou ainda como entender, quando pequenos, que uma picada de uma injeção causará uma dor que é para nosso bem? Tentemos explicar essa agulhada para uma criança com pouca idade, muitas mães sabem como é isso.

Pois bem, este artigo trás à tona, sob a ótica da fé os ingredientes deste amargo remédio que nossa sociedade tem ingerido a cada dia que passa, mais vezes. Chegam até em alguns casos, em ser um remédio controlado ou ainda, algumas vezes de uso contínuo.

DAI A CESAR O QUE É DE CESAR E A DEUS O QUE É DE DEUS (Mateus 22,21)

O ser humano em suas origens sofre de uma doença espiritual chamada avareza. Lembremos: o homem não é doente mas está doente. E esta sua natureza de se afastar de seu criador, com seu livre arbítrio, conforme está escrito no livro do profeta Oséias (cap 11,7), fruto da sua própria concupiscência. Como acontece com a gula e a luxúria, a ilusão da avareza é a de ser capaz de preencher o vazio infinito do nosso coração com as coisas finitas. É a avareza que nos faz acumular e multiplicar inutilmente os nossos haveres. Mas, é claro, trata-se de uma ilusão, pois tantas coisas finitas, mesmo somadas, não chegarão jamais a preencher o infinito.

Como nos recorda São Tomás de Aquino: "a avareza é o amor exagerado pelo possuir". De palavra aportuguesada de origem grega "filargyria" que significa o amor em possuir coisas, esta encontra no dinheiro a sua manifestação mais clara. Portanto aqui, acabamos de identificar os causadores da greve: Os empresários administradores. Mas não qualquer empresário, sobretudo os avarentos pois de longe são amantes do possuir mais, mais e mais dinheiro e, neste ponto sua ganância pelo mais, afasta a sua conduta justa e a correta administração de suas atividades uma vez que seu egoísmo insiste em não dar ao trabalhador o que é do trabalhador.

E foi o apóstolo Paulo que de forma incisiva compreendeu a verdadeira natureza "religiosa" da avareza, quando escreveu aos Colossenses (cap 3,5): "Mortificai os vossos membros, isto é, o que em vós pertence à terra ... especialmente a ganância, que é uma idolatria". E para que não nos reste dúvida, ele reafirma aos Efésios (cap 5,5): "o ganancioso é um idólatra".
E é Jesus quem nos coloca uma alternativa radical sobre a questão: "Ninguém pode servir a dois senhores. Pois vai odiar a um e amar o outro, ou se apegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro" (Lucas 16,13;Mateus 6,24).



ACORDAR O QUE É JUSTO (Mateus 20,4)

Como na parábola do senhor da vinha ensinada por Jesus, é exatamente na contramão desta verdade que o pavio de nossa protagonista deste artigo, a greve, entra em cena. Aqui é preciso colocar entre tantos exemplos que ocorrem no dia a dia, pelo mundo afora, uma fato ocorrido durante a semana de 27 a 31 de julho deste ano. Esta situação que aqui leremos teve seu pavio iniciado em maio do corrente. Cerca de 1435 trabalhadores da empresa de economia mista Urbanização de Curitiba S.A. "adoeceram" ao longo destes meses, de forma gradual e continua. E como o vírus mutante da gripe que a cada ano evolui e os remédio vão aos poucos perdendo sua eficácia até no combate aos sintomas, chegaram ao ponto de, por não receberem seu valor, reconhecimento, e seus direitos pelo "que é justo", baixaram ao pronto-socorro e o diagnóstico foi um só: o pavio queimou, está na hora do remédio amargo chamado GREVE.

Como um animal que encurralado pelo predador, em defesa de sua prole parte para o seu sacrifício final pois não vê mais nenhuma saída, o movimento de greve foi iniciado. Movimento este do qual fiz parte e passo agora a compartilhar alguns episódios deste momento.

O OPERÁRIO É DIGNO DO SEU SALÁRIO (Lucas 10,7)

A todo o que fizer para ti um trabalho, paga o seu salário na mesma hora: que a paga de teu operário não fique um instante em teu poder. Guarda-te de jamais fazer a outrem o que não quererias que te fosse feito. (Tobias 4,15-16). Sempre brilhantes são os ensinamentos das sagradas escrituras. Pena que muitos querem viver um paraíso aqui na terra, sem Deus. Não atribuem nada a Ele e com seus peitos estufados, queixos erguidos e narizes empinados seguem a catequese do mundo colocando a caridade e o amor ao próximo na lama e enaltecendo a si mesmos em prol de uma vida cheia de riquezas. Pobre "deles" que não sabem o que fazem. "Ai de vocês fariseus, já exclamava Jesus, que colocam pesados fardos sobre os outros. Assim veio agindo a atual gestão desta empresa que teve o apoio da justiça aprovando uma liminar contra os "pequenos", que dentro de seus direitos ainda foram forçados a trabalhar.
Ainda bem que Jesus nos confortou dizendo, felizes de vós, os pequeninos pois foi a vocês que meu Pai se revelou. Quanto a greve? Pois bem, dois motivos: o justo e digno salário do mês trabalhado não pago e a falta de acordar o que é justo, a reposição inflacionária do período. Para os desavisados e desinformados e ainda para o pessoal "de lá", do outro lado da muralha, isso mesmo, uma muralha é o que separa o trabalhador do empregador e até mesmo dentro das próprias classes, estes justos motivos até pela mídia e pela prefeitura da cidade de Curitiba foram levados à tona com uma transparência um tanto questionável, motivando comentários pela mídia que combatiam o movimento, como se os grevistas quisessem algo de extraordinário.
Imaginem caros leitores o prefeito da cidade se pronunciar na mídia dizendo que não sabia do porque da greve já que os trabalhadores acabaram por receberem seus salários com 4 dias de atraso. Puxa vida, a Unimed bloquear um fim de semana, o salário atrasar, o vale alimentação atrasar, a afirmação da empresa de que não tem dinheiro para reajustes e o pouco que pode fazer não inclui aumento de benefícios não é nada agravante. Afinal, vamos parcelar algumas migalhas e no fim todos batem palmas. Chega! Esse foi o grito de todos.

Assim é o egoísta, a lei só vale para os outros, para ele não. Rapidamente a empresa procurou a "lei" para implantar uma liminar obrigando os trabalhadores a exercerem suas atividades com 50% de capacidade do corpo de funcionários. Olhem só, "coitada" da URBS (Urbanização de Curitiba S.A.) não é mesmo! Sentiu-se prejudicada. É a crise" Afinal, a crise está aí, é uma das moedas de troca da atualidade. Mas a crise não impediu os altos salários do alto escalão da empresa e nem mesmo reajustes concedidos à vista. Pois bem, digam a frase completa senhores dirigentes da empresa. "Não temos dinheiro para pagar os operários trabalhadores". Mas bastou mais uma greve, a terceira na história da empresa e a de maior duração para enxergarmos a realidade com um olhar um pouco diferente.

GREVE: uma luta de alguns, omissão de muitos e conquista para todos.

Essa frase retrata bem a realidade dos funcionários. Por vários motivos não se participa da greve. Medos, inseguranças, apegos e tantas outras realidades pessoais que aqui não cabem discutir. Mas uma coisa se pode dizer:

ANTES DAR A CARA PARA BATER DO QUE O "RABO" PARA PRENDER.

Consciência limpa, senso de dever cumprido no dia a dia das tarefas. Estar sempre pronto em atender as demandas dos superiores. Manter a disciplina, a ordem, o bom comportamento e a produtividade. Estas são apenas algumas das atitudes das pessoas que estavam na greve. Sobretudo falo das pessoas que convivem no setor em que eu trabalho. São as pessoas da segunda foto deste artigo. Como elas, tantos outros se uniram ao movimento por terem a certeza de que esse remédio amargo seria a última solução. O chazinho já não curava mais a garganta que acabou por se inflamar, foi preciso uma dose de antibiótico. Estivemos unidos em greve, cumprindo o horário do expediente. Hora sentando na sombra, hora sentando no sol, hora em passeata, hora no cornetasso. Marcando nossa presença em frente ao prédio central da empresa.

Fica o alivio pois a batalha foi vencida, restou a união do grupo que se manteve em pé perante a situação. Também as lembranças da "Área Vip" e do "Puleiro", locais apelidados onde sentávamos. Fabiana, Jaqueline, Sergio, Jefferson, Marili, Hilnon e Francisco. Estes estão na foto deste artigo, mas como eles tantos outros compreenderam o verdadeiro espírito de companheirismo, união e perseverança como nos ensina Jesus: "Não desanimeis" e "Não tenhais medo".


fonte: Jefferson Roger

2 comentários:

  1. Lindo texto, parabéns... Mais uma certeza evidenciamos que hoje somos mais fortes e unidos...

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