terça-feira, 29 de setembro de 2015

Operai a vossa salvação com temor e tremor


Decerto, é muitíssimo bom ter uma confiança desmedida na misericórdia. Mas à luz da verdadeira fé, a esperança não deve estar separada do temor. E se a esperança deve alguma vez dominar o temor, é na condição de que o temor subsista como se fossem os fundamentos de uma casa que dá solidez a todo um edifício. Assim, o temor da justiça de Deus, o temor do pecado e do inferno deve afastar toda a vã presunção do nosso edifício espiritual. O mesmo Deus que disse: "quem vem a mim eu não o rejeitarei"; também disse: "operai a vossa salvação com temor e tremor". É preciso temer santamente para ter o direito ao sano dom da fortaleza.

Diante dos abismos escaldantes do inferno, volte-se a si, caro leitor. Volte a sim mesmo, profunda e seriamente! Onde você se encontra? Você está em estado de graça? Não há, na sua consciência, algum pecado grave que, acaso você venha a morrer de forma inesperada, possa comprometer a sua eternidade? Acaso tenha, creia-me, não hesite em arrepender-se com todo o seu coração. Depois, vá se confessar hoje mesmo, ou seja, o mais rápido possível. É preciso dizer, em face do inferno, que todos interesse deva passar bem longe de lá? Ou que é preciso, antes de tudo, assegurar a sua salvação? Nosso Senhor nos pergunta: "A que servirá o homem ganhar o mundo inteiro, mas arruinar a sua vida? O que poderá dar o homem em troca de sua vida?"

Diz o dito: não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje! Afinal, você tem certeza de que terá um amanhã?

Mas não se trata apenas de sair do estado de pecado mortal quando nele tivermos a infelicidade de cair. É preciso tomar as mais sérias precauções e levar adiante o zelo de nossa salvação eterna. Não devemos nos contentar em sair o mais rápido possível da via que leva ao inferno, mas também evitar de nela se engajar. É preciso evitar, a qualquer custo, as ocasiões de queda, sobretudo aquelas que a triste experiência tem-nos mostrado ser perigosas. Um cristão, um homem que tem o senso comum, sacrifica tudo, enfrenta tudo, suporta tudo para escapar do fogo do inferno. Deus mesmo nos disse que se tua mão, pé e olho, ou aquilo que você tem de mais valioso no mundo, se tornam um motivo para o pecado, renuncie a tudo isso sem hesitar. É melhor entrar mutilado, manco, cego ou em qualquer outra condição, no reino de Deus e na vida eterna, do que ser lançado no abismo de fogo, na eternidade do inferno, onde o fogo jamais se extinguirá.

Não tenhamos ilusões a este respeito! E é mesmo pelas ilusões que o inimigo de nossas pobres almas procura surpreender, já que um ataque frontal não parece fortuito. As ilusões são pérfidas, sutis, múltiplas e frequentes. Portam, sobretudo, o egoísmo através de raciocínios friamente calculados, e bastante sofisticados, para dar nuances às insurreições do espírito contra a fé, contra a inteira submissão devida à autoridade da Santa Sé e da Igreja; sobre as pretensas necessidades de saúde ou mesmo habituais, que pouco a pouco vão escorregando na lama da impureza; ou ainda sobre os costumes e conveniências do mundo em que vivemos, e que facilmente leva ao turbilhão do prazer e da vaidade, do esquecimento do Deus e da negligência da vida cristã; enfim, a cegueira causada pela ganância, que leva tanta gente a sucumbir aos pretextos de necessidades comerciais, costumes gerais nos negócios ou sábias previsões para o futuro. Repito: o inimigo só leva a ilusões! Quantos réprobos, hoje no inferno, trilharam este caminho! Podemos nos seduzir, ao menos em uma certa medida, mas não saberemos dissimular aos olhos de Deus.

Por tanto quer certeza de que está a evitar o inferno querido leitor? Não se contente em evitar o pecado mortal, de combater os vícios e os defeitos que para lá conduzem. Tenha uma boa e santa vida, seriamente cristã e plena de Jesus Cristo.

Faça como as pessoas prudentes que têm de passar por caminhos difíceis quando estão a contornar os precipícios: com medo de cair, tomam cuidado de não andar pela borda, onde um passo em falso pode ser fatal. Sabiamente tomam o lado oposto da rota, mantendo sempre ma distância segura do precipício. Faça o mesmo! Abrace esta nobre e bela vida chamada crista, a vida da piedade.

Sempre comece e termine o dia com uma oração, rezada com muita devoção e cordialidade. Junte às orações uma leitura atenta de uma ou duas páginas do Evangelho ou de bons livros devocionais que enriqueçam o espírito. Depois da leitura, recolha-se por alguns minutos para refletir e tomar decisões, pela manhã, do que se irá fazer durante o dia; à tarde, do que se irá fazer à noite. Reflita também sobre a morte e a eternidade.

Tome o excelente hábito de fazer o sinal da cruz todas as vezes que você sair e entrar em casa. Esta prática, muito simples,é santificante. Mas tome o cuidado para jamais fazer o sinal sagrado de forma leviana, sem pensar, pela rotina, como tanta gente faz. Deve ser feito de forma muito religiosa e com muita seriedade.

Tenha o hábito, e jamais deixe-o, de se confessar e de comungar com frequência. A confissão e a comunhão são os dois grandes meios de salvação oferecidos pela misericórdia de Jesus Cristo a todos que querem salvar e santificar suas almas. Evite a faltas graves; cresça no amor ao bem e na prática de virtudes cristãs.

O célebre Catecismo de Trento diz que o mínimo que deve fazer um cristão, que tenha um pouco de preocupação com a sua alma, é ir aos sacramentos todos os meses. Em todo o caso, não perca a direção, mantenha-se no caminho. Faça o melhor, mas faça pelo amor de sua alma, pelo amor do Salvador que derramou o Seu sangue por ela. Não recue diante do Evangelho e seja um bom cristão.


fonte: trecho retirado por Jefferson Roger do livro O inferno, se existe, o que é, como evitá-lo de Monsenhor de Ségur

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagens mais visitadas