quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O Fardo do Cristão

Qual é o segredo ou a maneira de ser perseverante na fé, de modo frutuoso e autêntico, evitando uma vida espiritual ao estilo "montanha russa" – em que fases de gloriosas alturas espirituais são sempre seguidas por quedas e recaídas em velhas infidelidades? Como podemos nos preservar no Estado de Graça e cultivar o dom da perseverança, indo além de uma coleção de penosas observâncias que nos são impostas e procuramos inutilmente cumprir, como faz a vítima de obesidade patológica que tenta, inutilmente, seguir uma dieta rigorosa e até consegue perder alguns quilos depois de algumas semanas de heroicos esforços, mas depois acaba por recuperá-los e ganhar ainda mais, quando o inevitável acontece e a tentação das guloseimas vence a disposição em não comer nada além de saladas e filés de frango grelhados – para o resto da vida? Pois bem, que solução os bons médicos vêm encontrando nos últimos tempos para superar este círculo vicioso das dietas alimentares? Simplesmente que o paciente aceite suas próprias limitações e se permita um lanche gorduroso ou uma pequena barra de chocolate, de vez em quando. É preciso reconhecer as limitações do paciente e lidar com a realidade dos fatos. E a prática vem demonstrando que isso funciona bem mais e melhor do que as velhos regimes radicais.

Também na vida espiritual é preciso que o cristão saiba evitar o rigor excessivo para consigo mesmo e que não tente avançar para além do que lhe é suportável nas obrigações que se impõe. Sobre isso falou nosso Senhor à multidão que o seguia e a seus discípulos, dizendo: “Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Observai, pois, e praticai tudo o que vos disserem; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não praticam. Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem sobre os ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los. (Mt 23.1-4).

Sim, todos nós gostamos de um elogio, apreciamos o reconhecimento pelo nosso trabalho, quando nos empenhamos com seriedade e carinho, e um ombro amigo para nos apoiar quando as coisas ficam difíceis é sempre bem-vindo. Essa tal "massagenzinha no ego", de vez em quando, pode nos ajudar a perseverar na luta, sim senhor, e não há nada de errado nisso. Atentem os nossos leitores que não dissemos, aqui, que a vida do cristão deve ser apenas humilhação, um rastejar no pó e cobrir-se de cinzas sem fim.

Em quase tudo é preciso saber encontrar a justa medida e viver conforme, sem "curvar demais o arco", como disse Santo Tomás, para que não se quebre, e nem "deixar a corda muito solta", porque desse modo a flecha não pode ser disparada. Entenda-se bem que não estamos aqui a afirmar que, para que possamos perseverar na fé, devamos nos permitir pecar "de vez em quando". Nada disso. Precisamos abominar e odiar o pecado, sempre e todos os dias, e precisamos buscar incessantemente odiar tudo o que nos afasta de Deus, cada vez mais, até o nosso último suspiro. O soldado cristão deve tornar-se exímio na arte de odiar o pecado. O que dizemos é aquilo que a Igreja sempre disse: que há tempo para rir e para chorar; para festejar e para jejuar, "tempo de prantear e tempo de dançar" (Ecl 3,4).

Sendo assim, qualquer regra de vida que procure tornar o homem satisfeito consigo e por si mesmo, sem temor, sem inquietação, sem noção da própria dependência, é enganosa; é como o resultado de um cego guiando outro cego: como sabemos, assim foram sempre as religiões pagãs.

Por isso o Cristo disse: "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus"; a palavra "pobre", nesta passagem, está relacionada ao vocábulo aramaico anya (hebraico ‘ani’) e significa "miserável, pedinte, suplicante, humilde". Trata-se de uma exortação para que sejamos como “mendigos perante Deus”, como alguém que nada possui e se aproxima do Rei para simplesmente pedir, sem ter nada para oferecer em troca. Não é humilhação no sentido negativo, mas puramente prático. Se nos consideramos ricos, então já não precisamos de Deus; somos autossuficientes. Mas há uma outra analogia utilizada por Nosso Senhor que se traduz mais conveniente para os nossos tempos: somos como crianças pequenas, ou mesmo bebês de poucos meses de vida, que dependem integralmente dos pais, para se alimentar, hidratar, medicar, proteger do frio, manterem-se limpos e abrigados, etc. Também por isso o homem Jesus ousou chamar ao Temível e Poderoso Senhor dos Exércitos apenas "Abba", que quer dizer, simplesmente, "Papai"...

Se aceitamos que a condição mínima de Jesus para quem deseja segui-lo é renunciar a si mesmo e dedicar-se em primeiro lugar a segui-lo, sem reservas, e se compreendemos e assumimos que de fato Deus é Amor, então entenderemos que o caminho para a felicidade é também o caminho do Amor. O Amor às vezes é difícil, exige sacrifício, renúncia, maleabilidade, docilidade para aceitar aquilo que não compreendemos... E é só assim que crescemos. Sim, o ser humano nasceu para ser feliz, embora o mundo não entenda nada de felicidade, na medida em que a confunde com riquezas, sensações fúteis e posses. Deus é a Fonte da felicidade. Por favor, leitor, pare e medite sobre esta realidade profundíssima capaz de transformar radicalmente e definitivamente a sua vida, e lhe garantir a salvação eterna: Deus é a Fonte da felicidade – e da honra, e da glória, e o caminho certo para a realização humana. Ele não quer que soframos, mas que nos preparemos para viver a felicidade eterna. Nossas provações temporárias são menos que sombra de sonhos diante da Eternidade de bem-aventurança que nos espera. O segredo da felicidade está em “deixar” Deus ser Deus em nossas vidas, não somente aceitando, mas modelando-nos e alinhando-nos, a cada dia, à sua santa Vontade.


fonte: o fiel católico

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